Aprendendo com os Especiais

Trabalhei por quase uma década numa APAE e as recordações, quando vêm à tona, enchem o meu coração de uma ternura sem par. Foi lá que aprendi a ter coragem e a vencer alguns medos e preconceitos que, por ignorância, alimentava. Lá aprendi a ser mais humano e reconhecer que, quando às vezes pelas ruas, ou em qualquer outro lugar, via uma criança especial e sentia pena, na verdade a pena era de mim. Pena, por não entendê-la, por saber pouco do seu mundo, e por ignorância mesmo.

Os da Síndrome de Down eram quem mais afinava comigo. Me entendiam de tal forma que ficava surpreso com sua sensibilidade. Fiz algumas amizades interessantes com esses anjos especiais. Uma vez, eu não estava bem, havia tido uma semana ruim e fui dar aulas de música com ânimo péssimo. Os Down, meus amiguinhos, cerca de três, me sentiram, se aproximaram de mim, encostaram suas cabecinhas nos meus braços enquanto me alisavam. Cantavam baixinho uma canção de alegria que eu havia feito para todos naquela escola e eu… só fiz chorar.

Não dá pra descrever essa emoção Havia uma que eu amava muito, éramos ótimos amigos, tínhamos saudade um do outro. Como eu dava aula apenas uma vez por semana, quando nos víamos era como se houvesse passado alguns anos: abraços, sorrisos e, mesmo sem falar muito nos entendíamos perfeitamente. Era sempre uma festa, um lindo reencontro!

Toda semana era assim. Outra vez, numa escola, num dia comemorativo a Castro Alves, os alunos da APAE foram convidados. Eu fui bem antes para organizar um teatro com o pessoal do Castro Alves. A minha doce amiguinha Down, desgarrou-se das demais alunas e saiu a minha procura. Ela sabia que eu estava naquele lugar.
Lembro-me bem que eu estava na cozinha da escola tomando café, um lugar bem escondido, quando de repente ela apareceu. Eu me assustei e perguntei se ela havia fugido, como me achou e onde estava o resto dos alunos e alunas. Ela nem deu bola e apontou para um óculos que estava usando pela primeira vez e, queria “apenas” me mostrar….

Tomei-a pelo braço e fui ao encontro da diretora e professores que estavam preocupadíssimos com a fuga da sapeca. Não sei, sinceramente, como ela me achou. Eu poderia encher mais algumas laudas falando dessa gente esperta, dos Down, que reconhecem de longe os que de perto os rodeiam.

Eles têm uma mirada profunda e pouca paciência, é verdade. Mas entendem mais de amor e de fraternidade de que nós. São mais verdadeiros, não são desleais, e, dão a mão ao primeiro que souber doar-se, que vier desarmado de preconceitos. São carentes, não como nós que andamos buscando o supérfluo, o descartável para suprir nossas carências suburbanas.

Eu tenho uma sugestão para dar aos que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer esses amiguinhos muito especiais, de perto. Assistam ao filme “O Oitavo Dia”. E depois reflitam sobre a vida de cada um. Vai ser um ótimo começo para por fim aos estigmas, hipocrisias, e alienação. E me permito a repetição: Quando você encontrar alguma criança especial, não sinta pena e nem rejeição. É você, observador, que está carecendo de cuidados especiais.

Lony Rosa.

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