Em nome do peixe, do chocolate… Amém!

31 de março de 2010
By Da redação

Estamos no meio da semana santa, às vésperas do dia da Páscoa e, (sem sombra de dúvida) a maior preocupação de todos nestes dias santificados é comprar os ovos de chocolate antes que acabem. Ah, sim! O bacalhau e o salmão também (pois a sardinha tem sempre em estoque).

Longe de mim dizer que isto é um sacrilégio! Dentre as várias lições que o Senhor (cuja morte deu origem a este feriadão) deixou, uma delas é “não julgar”, e esta eu garanto que pratico direitinho.
Assim, cada um que recheie sua cesta do jeito que bem entender ou se empanturre com o peixe que bem quiser (acreditando que fez jejum), a mim não interessa. Só não dá para ficar calada quando alguém me cobra com espanto: “Tu comes carne na quarta e na sexta-feira santas?!!!!”
Confesso que a resposta sai sem graça, tal qual a criança que acabou de ser pega no flagra fazendo uma arte: “Co..co..mo.”

É que quando alguém faz uma pergunta destas pra gente (em plena semana santa) parece que o pecado ganha corpo. A impressão que tenho é de que o pecado cria chifres e rabo e vem me espetar com o seu tridente afiado: “Comendo carne, heim!!!! Ehehehe! Me aguarde!!!

Exagero?! Herança da educação religiosa da época. Nunca me esqueço, quando criança, do dia em que comi sanduíche de presunto e queijo no café da tarde e quando me dei conta que  delicioso frio era composto de carne,já tinha engolido o pecado. Passei o dia me martirizando: depois de comê-lo, vomitar me absolveria? Nunca descobri a resposta. Arrisquei continuar com a barriga e consciência cheias.

Superados todos os medos e tabus impostos e inconsistentes, a semana santa me parece atualmente uma grande confusão. Num paradoxo entre carne ou peixe; peixe ou chocolate; chocolate ou roupa ( porque não engorda); Religião e Consumismo disputam acirradamente a hegemonia da data dividindo os torcedores em volta do ringue.

Entre tradições, cultos e encenações; preto, branco e recheado, algo me faz crer que o Coelho vem levando vantagem sobre o Cristo nas últimas páscoas (e o comércio também).
Se é para jejuar, por que não o fazemos ao pé da letra! E me refiro “ à letra” de Jesus.

Se é para se abster, que nos abstenhamos das ostentações, do egoísmo, da soberba, do exibicionismo .  Se é para privar-se , que nos privemos da raiva, do rancor, da inveja, da maledicência. Se é para se despojar , que nos despojemos da hipocrisia, da ignorância, da covardia.

Se é para jejuar , então que façamos o jejum espiritual. Este sim, não custa nada, mas vale muito! Além do que transborda a alma do  verdadeiro sentido da data.
Concordo que as tradições existam para serem mantidas e cultuadas, porém, quando elas começam a ser perder em meio à evolução da humanidade, misturando-se à diversidade de crenças e filosofias de vida, é hora de atualizá-las.
 
Para mim, o jejum destes dias confusos vai muito além do cardápio da semana. Numa época em que o pecado anda livre leve e solto, certas mudanças de atitude são a melhor forma de purificação.
E ao responder a quem me questionou se como carne na quarta e na sexta –feira santas, eu completei: Mas se fizer peixe, me convide que eu vou!
  
Léia Batista

Meu Jornal : www.jornalsemananews.com.br
Minha Página: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/leiabatista

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