Acadêmicos Alienados

Onde trabalho tem uma acadêmica, oitava fase, que não tem o hábito de ler. Jamais folheou o Pequeno Príncipe, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marques, Brecht, Mario Quintana, Borges, Ernesto Sábato e outros milhares de mestres da literatura universal. Conversando mais um pouco, me esclareceu que todas as suas colegas e amigas têm o mesmo hábito – um péssimo hábito –, que ler é cansativo e se perde tempo. Meio de soslaio, me perguntou qual era a graça de ficar horas, semanas e até meses, debruçado num livro.
 
Depois de pensar um pouco, resolvi não contestar a futura mestra. Seria uma enorme e estressante perda de tempo. Como recuei na resposta ela atacou ensaiando um xeque- mate e abriu a boca com esse anedotário de banheiro de rodoviária: “…O nosso presidente da república não lê e no entanto tem o cargo mais importante da nação”. Não é que a sumidade e futura doutora, QI de ameba, está prenhe de razão? Tenho certeza de que essa lavra é capaz de botar fogo nas bibliotecas e livrarias. Deve fugir dos livros como diabo da cruz.

O que é mais fabuloso é que o alienado é uma pessoa feliz porque não está preocupado com a comunicação entre os seres humanos, conhecer outros paises, mesmo o Brasil que é tão magestoso, saber os rumos do planeta, das pesquisas que curam, das conquistas da ciência e mais outras chatices que só se sabe se folhearmos um livro, um jornal ou ouvir através de um canal de noticias.

A gente sabe que a maioria lê apenas por obrigação, quer dizer, o que está na grade da academia. Fora disso o que mais é consumido pelos leitores letrados, são as revisas mostrando os artistas de tv e cinema, os corpos sarados, a fofoca daquela que separou de fulano para ficar com sicrano e depois se amontoou com beltrano para finalmente se casar com o famoso carcamano, que depois de anos assumiu a gayzice para o desconsolo dos fãs.
Para essa minha colega de trabalho, que se eu comer o seu cérebro vou ficar em jejum, procurei entre os meus livros algum escrito que lhe atiçasse a inteligência e a sensibilidade. Encontrei um relato de Bertoldo Brecht. Eu aprecio muito a sua obra e, graças aos céus, muitos nesse mundo cultuam a sua genialidade. Chama-se “O Analfabeto Político”.

Sei que muitos de vocês conhecem esse tapa de letras na cara dos néscios. “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo da vida, o preço do feijão, do peixe e da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Lony Rosa.

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