30 anos sem Vinicius – Lony Rosa

Vinicius de Moraes. Foto Meramente Ilustrativa. Fonte: www.bastaclicar.com.br

Naqueles tempos, quando amar era uma obrigação de todos e o respeito fluía através do carinho e ações fraternas, a gente saia de casa e se divertia pra valer. Era bom à beça, como se dizia. Os bares estavam repletos de cabeças pensantes, críticas e expertas. Protestávamos por causas justas, solidárias e muitas vezes nos embebedávamos até com leite, nas altas horas. O amor estava no ar!

As universidades fervilhavam de movimentos culturais, enriquecendo o país, de sul a norte, com a melhor música e poesia que o momento podia propiciar. Nossa droga era a boa música – e continua sendo. Sob a batuta de Vinicius de Morais e seus menestréis e parceiros, Pixinguinha, Carlos Lira, Tom Jobim, Chico Buarque, Adoniran Barbosa, Dolores Duran, Edu Lobo, João Gilberto, Baden Powell, Dorival Caymmi, os pares se encontravam para namorar ao som de “Eu sei que vou te amar”, “Apelo”, “Valsinha”, “Por causa de você”, e mais várias centenas que marcaram a alma daquela geração boemia, centrada e romântica.

O “long play”, o disco de vinil, passeava de casa em casa, alimentando de letras e melodias aquela tribo cheia de esperança que acreditava que a vida fosse pra valer, que a vida fosse pra levar, como dizia o poeta.

Sexta-feira passada, em Criciúma, no Bar Meva, um espaço diferenciado que produz a melhor música do sul do estado, eu, Lise Haas, Neto Nunes e Cristiano Forte, homenageamos esse momento de ternura e paz, rememorando, com muita afinidade musical, as três décadas do vôo do grande e mais popular poeta brasileiro, aos céus.

A casa lotou completamente, muitos não puderam entrar. Isso significa abertamente que ainda existe uma geração de românticos, desgarrados musicalmente, que busca respirar um pouco de cultura. E quando surge uma oportunidade, ela vai em busca do seu momento, participa e prestigia, como assim aconteceu.

Essa geração, a geração do bom gosto, é um planeta diferente. No meio de tanto desamor, tanto desencontro, a nossa geração – e somos muitos, acredite –, está em todos os lugares. E quando se ouve o cantar dolente, apaixonado, onde as rimas embaladas pelas grandes harmonias dos grandes músicos brasileiros, esse é o alerta!

Essa geração sai do seu ninho e, como um pássaro, sai em busca de um canto igual. Tenho saudade, muita. Mas de vez em quando reúno alguns amigos de identidade sonora e degustamos alguns saraus para rememorar o que não deixamos morrer.

Não faz falta só os vinicius da vida, como diz o meu irmão Flavio Spillere. falta o olhar, a mão amiga, a sintonia de almas boemias, alegres, saradas, para fazermos um grande coro e cantar apesar de tudo. Vinicius falou: “… e no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar, é preciso cantar e alegrar a cidade…”

Quem sabe se a gente propagar essa parábola, desse grande profeta do cotidiano, Vinicius de Morais, as coisas do coração e da alma se harmonizem. Indo um pouquinho mais longe…, quem sabe substituir um anti depressivo por isso: “… a espera de viver ao lado teu, por toda minha vida.”

Lony Rosa é professor, músico, diretor e compositor.

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